A JORNADA DA CONTRADIÇÃO

Quando fui embora da 8a. Jornada de Agroecologia em maio de 2009 existia uma inquietação dentro de mim. Me perguntava de que maneira a minha formação dentro do curso de Nutrição poderia contribuir na luta que eu vi estar se construindo dentro daqueles espaços. E hoje, dois dias depois de retornar de Londrina após a 10a. edição do evento, eu trago comigo a resposta.

Desde o primeiro dia de jornada eu observei como era grande o consumo de refrigerantes nos intervalos das mesas e especialmente durante o almoço. No terceiro dia de jornada eu e uma amiga, também futura nutricionista, comentávamos sobre a contradição: fala-se em produção de alimentos saudáveis mas não se pratica o consumo de alimentos saudáveis. E não digo isso só pelo consumo absurdo de refrigerantes, mas também por ver filas homéricas na cantina da Universidade no horário do almoço com as pessoas substituindo o almoço preparado nas cozinhas comunitárias (composto por arroz, feijão, carne e uma imensidão de hortaliças) por um salgado frito qualquer entupido de catchup e maionese.

Logo após o almoço fomos dar uma volta na feirinha ecológica com uma grande variedade de produtos: de livros e artesanatos até queijos, conservas e sementes. De repente, nos deparamos com uma barraquinha logo na entrada da feirinha vendendo produtos da Kraft, Coca-cola, Danone e outra imensidão de produtos oriundos das empresas que menos deveriam estar presentes ali.  Pra coroar os produtos e os vendedores vestindo a camisa literalmente da Agroecologia, uma embalagem de margarina Soya (produto da Bungue) servia como “caixa”. Seria cômico se não fosse trágico.

Passado o momento de fúria e incompreensão, procuramos pela coordenação da Jornada pra questionar a venda daqueles produtos ali. Tal foi o nosso choque ao ouvir que muitas vezes é preferível vender esses produtos e arrecadar o dinheiro do que deixar que as pessoas comprem de outro lugar – usando as palavras da pessoa com quem conversamos a justificativa era de que “elas vão comprar mesmo assim”.

Muita calma nessa hora, cara pálida! A partir do momento que se organiza um evento com um público de 4000 pessoas e que se coloca um posicionamento contra as transnacionais, contra o plantio de sementes transgênicas e uso de agrotóxicos e se propões lutar pela soberania alimentar, esse comportamento condescendente com esse tipo de situação não deveria acontecer. Me soa o auge da hipocrisia debater a produção limpa de alimentos mas por outro lado permitir que armem uma barraca dentro de uma feira ecológica e se permita a venda desse tipo de produto.

Não sou uma perfeita babaca e entendo que estamos inseridos dentro de um sistema e que em alguns momentos fica difícil querer fugir absolutamente do consumo de produtos de determinadas empresas mas num local onde se ergue uma bandeira vermelha a última coisa que deveria acontecer era a venda desse tipo de produto por parte das pessoas que compõe a estrutura do evento. A cantina estava ali e tava cumprindo o seu papel de vender e acumular. Se as pessoas optavam por comprar uma lata de coca-cola ao invés de um suco de uva natural, que era o mesmo preço e ainda vinha 150ml a mais, é porque falta formação.

E constatei, ao final da jornada, que a falta de formação não é só da enorme massa que estava presente durante aqueles quatro dias, mas também da pessoa com quem conversamos sobre o assunto que foi incapaz de se despedir de nós ao final da viagem, olhando de rabo de olho e com cara de desprezo. Tudo o que posso dizer é que sinto pena por saber que existem pessoas dentro da organização de eventos tão bons como é a Jornada de Agroecologia e que não conseguem absorver uma crítica como algo construtivo e não destrutivo. Nossa reclamação foi no intuito de compreender aquela situação e, ao perceber que falta a formação no “depois da colheita” tentar contribuir para fortalecer a luta. De que adianta pregar uma produção limpa e soberana se na hora de consumir a opção é a coca-cola e a coxinha frita em um óleo da Cargill?

A crítica por si só é muito fácil e vazia e não foi isso que fizemos. Percebemos algo que poderia ser diferente e levamos uma proposta pra ajudar a construir um mundo diferente. Por isso é que digo que voltei de Londrina com o coração em paz e com as forças restabelecidas porque consegui encontrar a resposta da pergunta que trouxe há dois anos atrás de Francisco Beltrão. É exatamente pra isso que vai servir ter estudado todos esses anos e debatido tanto sobre alimentação: pra ajudar a construir a concepção de alimentação saudável pra além da produção de alimentos. De sentar com essas pessoas e entender os porquês, o que determina as escolhas e tentar mostrar outros caminhos e outras possibilidades.

Apesar de ter voltado bastante decepcionada com algumas atitudes frente ao ocorrido, a Jornada foi maravilhosa! Os espaços de construção, as conversas informais durante os cafés e almoços valeram pra acrescentar muito! A construção é constante e são esses espaços que renovam as forças e fazem a gente perceber que o mundo precisa dos braços e pernas de todos.

As falas de Sebastião Pinheiro, Ademar Bogo e Álvaro Delatorre foram as que mais fizeram valer a pena a viagem! E sem a menor sombra de dúvidas, a fala da Aleida Guevara na mesa de encerramento me roubou lágrimas e sorrisos! Fiz um vídeo com os cinco minutos finais da fala dela, mas o som ficou bem ruim. Ainda estou tentando transcrever a fala dela pra o português pra poder colocar o vídeo na internet com a legenda pra ajudar a ouvir. Espero que na próxima semana já consiga ter feito isso.

Por hora é isso.

Fernanda.

“Não há outro caminho: ou a Revolução Socialista ou a caricatura da Revolução.”

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